domingo, 4 de novembro de 2012

 
A comadre

Moema Borges e sua horda de afilhados e afilhadas, para ela, reis e rainhas. E suas comadres, cada qual intimamente ligada e se sentindo única. E ao mesmo tempo se reunindo umas às outras, se tornando amigas, aglutinadas em torno da comadre Moema. Até merece inventar uma etiologia para a palavra “comadre”: “co-madre(s): mulheres sendo mães juntas, dividindo, trocando, compartilhando experiências, no gerúndio”. As comadres da Moema, uma confraria, a irmandade feminina amando crianças, meninada bonita que crescia conosco e aos nossos olhos, festa barulhenta e divertida. “Comadre”, certamente, também é simbólico, como tudo o que diz respeito ao humano. Não importa quem Moema batizou. Em torno dela se reuniram mulheres, homens e crianças, pessoas de diferentes credos, crenças, idades e etnias, tribo a qual tantos pertencemos. Se batismo tem o sentido de iniciação, Moema iniciadora amorosa, incentivadora nunca autoritária, propiciava.
Na verdade, cada pessoa das famílias de quem Moema se aproximava a queria, e com ela usufruiu. Tão amada, muitos de nossos jovens a quiseram madrinha de casamento, e ela subiu a muitos altares. Em cada encontro abria o sorriso de olhos verdes e os braços aconchegantes, dizendo: “Coooooomaaaaaadre”. Ou, “Amiiigaaaaaaaaaa”. Ou “Queeeeeeriiiiiiiidaaaaaaa”.
Aprendi tanto com ela! Cada dia uma novidade, algumas pragmáticas, outras sonhadoras. No nosso caso, duas arianas tão diferentes, e tão parecidas. Nossas mães, o mesmo nome, Mariinha. Nossos filhos regulando em idade. Deliciosa contadora de histórias. Em uma delas, a sua avó, recém-parturiente, amamentando sua criança. A avó morava “na Fazenda”. Diferentemente dos outros filhos, aquele bebê passava fome, o leite da mãe não o sustentava. Chorava, e a mãe não sabendo o que fazer, chorava também. Um dia, acharam a jiboia que morava no teto, e na calada da noite descia sorrateira, para sugar o leite da mulher adormecida. Alguém matou a cobra, e rasgada sua barriga o leite ainda fresco escorreu, nem tempo de talhar. Contei à comadre que esta história ganhou mundo e virou lenda, pois, primeiro soube dela através do meu avô, quando pequena. Aquela mulher com sua criança, e aquela cobra, povoam ainda hoje meu imaginário.
Irmãs não consanguíneas, eleição mútua, linhagem espiritual que se vive e não se explica, também discordávamos, no trocar ideias, no teimar. Afinal, arianas, né? Nossa concepção de vida e mundo, esta sim, da mesma cosmologia. Em determinado momento no campo dos debates começávamos a rir uma da outra, e cada qual de si, “Nooossaa Senhoora!” Nunca nos despedimos sem imaginar e combinar o próximo encontro.
Feminina e original, a comadre gostava de se vestir. Nunca escondeu procedências e endereços, dava-os de bandeja, e seus fornecedores e fornecedoras passavam a fazer parte da tribo de amigos, do bando. Na cozinha arrasava, em pouco tempo a mesa era um banquete, fosse comida goiana-mineira, ou das mais sofisticadas, lanches, almoços, jantares. Inventava doces, compotas de frutas, bolos tortas, biscoitos. Chamava de “comida de Deus”. Em meio ás delícias culinárias, correram saraus literários e de artes em geral, ela nos cercava de beleza. Arquitetou a reforma do apartamento em que moramos hoje, o compadre dela e eu. Adorou nos ter na Avenida Paulista. Bastava um telefonema para combinar o que fazer: um filme na Reserva? Um café na Cultura? Passar na Fnac? Na Martins Fontes? Tomar o metrô e comprar o pão dos beneditinos? E lá íamos braços dados falando e rindo de qualquer bobagem, tecendo sociologias do povo que cruzava conosco, do que nos cercava, filosofando. Tecelãs, tramando e urdindo, e nos sentindo parte das horas, das pessoas e dos acontecimentos. Vivas na vida, lúdicas, e levando viver muito a sério, vivíamos no tempo. Não é possível falar da Moema no geral, e tenho certeza, cada amiga, amigo, comadre ou compadre, terá infinitas lembranças e histórias para contar. E os afilhados e afilhadas? Nossa Moema de Freitas Borges continua em cada um de nós.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

RISCOS


Na tribo dos rebeldes,
fazer o quê?
Vivo e brinco
de aprendiz

 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Muita saudade

Meu amor,
por que desapareci?

A culpa é do Tempo

 
Voa como gaivota,

grasna, mergulha

e some no mar

 
Estou aqui no lugar

que conhecemos:

 
a padaria, a floricultura,

livrarias, cafés, ruas e ladeiras,

salas de cinema

 
E no entanto,

em um lugar

inteiramente outro





 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

No ateliê do professor

No Ateliê de Sergio Fingermann
Anotações de Eliane Accioly
A arte
7 de agosto, 2012

1. Oferece pistas para onde você vai/indo (no gerúndio) , com suas experiências. É estar em contato com o que acontece (acontecendo).
2. O processo Artístico é parecido com o que ocorre com o encontro entre o Par Analítico. (Paciente e terapeuta).
3. O artista perde as referências exteriores ao contexto do objet...
o de arte, por exemplo, um quadro, um poema, um conto. O artista usa as referências externas para se perder.
4. O estranho em nós: conhecer muito e esquecer muito. O estrangeiro, o que está de passagem, que não habita e não pertence.

Aula de Hoje
14 de agosto, de 2012

1. O que é a imagem? A imagem não é o que aparece, ou o que parece. A imagem é memória, porosidade, trânsito. É a dimensão da evocação. Quando escutamos um acorde, o acorde termina nele mesmo. Escutamos a continuidade. Pensamos que escutamos uma frase musical. (E até escutamos a frase musical). Mas cada frase musical é feita de acordes que se sucedem. Nossa memória guarda o primeiro acorde, o segundo... a infinidade dos acordes. Nossa memória (artística) é feita de porosidade. É porosa. Nossa memória é uma ficção para construir sentido, onde não há sentido.
2. Somos vazio. Cascas de cebola que vamos tirando para chegar ao.......... vazio. Somos um grande vazio.
3. A dimensão do sagrado ajuda a elaborar o estar junto na alteridade. A noção do outro.
4. Aonde a imagem se faz? O destino da imagem não é entendimento, mas a compreensão no tempo.
5. Celebrar a vida é viver a experiência. É “como uso minha experiência”. É inclusive, “tirar o minha”, porque é preciso deixar o eu, e, a subjetividade de lado. Elaboramos a experiência vivendo outra experiência. E assim, sucessivamente.
que ocorre com o encontro entre o Par Analítico. (Paciente e terapeuta).
3. O artista perde as referências exteriores ao contexto do objeto de arte, por exemplo, um quadro, um poema, um conto. O artista usa as referências externas para se perder.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O invisível

Há uma enorme diferença entre o oculto e o invisível.
Estou com muitas saudades de meus amigos blogueiros.
Será um tema pare desenvolver aqui, com vocês.
Curto o invisível.
A voz humana, o ar que respiramos são palpáveis e invisíveis, não é o máximo?
A saudade e os sentimentos também são invisíveis.

Enorme abraço

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Gerações: música em três tempos

Foto de arquivo pessoal _ Espanha, Cuenca









I - 1321 A.C.
                                  
                                       

No princípio, amanheci deserto.

Um homem _ metade sol, metade lua _ escalando dunas, descobriu-me os seios. Oculto no remanso de um abraço infindo fecundou-me. Ao conceber os gêmeos renasci oásis, uádi, poço, palmas, tamareiras.

Desde então, os frutos que de mim brotam alimentam pássaros, camelos, cabras, cobras, lagartos, as caravanas dos tuaregues, a luz e as sombras do meu homem. E os meninos: o Negro e o Dourado.

  

II - 1950 A.D.

A cama de espaldar alto e dossel de filó não protegia meu sono de menina das areias, do calor, da comida, da língua e musica árabe, ou dos murmúrios do Nilo, que, renegados pela cultura de minha gente, apesar de vivermos no Cairo, entravam sorrateiros e caudalosos pelas conversas proibidas nas sombras da cozinha.

As tias, avós, primas mocinhas, minha bela mãe, vestidas de sedas e rendas de Chantilly, preenchiam salas luminosas de risos e vozes musicais. Os homens desmanchavam-se na fumaça dos charutos, embriagados com a promessa dos lucros nos negócios. As crianças corriam por varandas, caramanchões, jardins. Vivíamos nas bordas do Sahara, e falávamos o francês.


III - Terceiro Milênio

Atravessamos o mar, conheci meu marido, tivemos filhos. Agora, avó, em meus sonhos, permaneço jovem e loira. Neles visto leves e transparentes véus, cavalgo camelos enluarados, quando, os cheiros, sons, e ritmos vivos, torneados e sacrílegos me possuem, em tempos e verbos de língua brasileira.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tentando instalar o tradutor de textos

Publoco a ajuda de Peonia:

Querida Eliana son Peony
Usted está muy feliz de ayudar.
Me pongo cuando creé mi blog he encontrado varias dificultades. Sólo después me enteré de algunas cosas con el tiempo.
Trato de explicar cómo agregar el traductor. Con la esperanza de ayudarle. Así que cuando me vienen a visitar se hace más fácil para mí y para otros para entender su contenido.
Luego, en la página del blog en la esquina superior derecha hay un icono con las palabras de arriba y luego haga clic en Diseño en el lado izquierdo de la página se verá voces diferentes ... lo que tienes que hacer clic en el DISPOSICIÓN elemento de la pantalla que aparece haz clic en el elemento Añadir Gadget después de la verás muchos gadgets, pero basta con hacer clic en el elemento y después de agregar el TRADUCTOR GOOGLE guardar el diseño.
Espero haber sido claro, ya sé que no es muy fácil, pero verá usted tenga éxito y nos vemos pronto besos

Vi que ya se han resuelto. Brava. Un abrazo