sábado, 16 de junho de 2012

De finitude e infinito








Uma crônica



Neste agora ela é mais esquecimento que lembranças. Do que se lembra? Do que se esquece? A sensação regente é real, como o vento que entra pela janela aberta. É como uma notícia que chega e conta que ela se esquece de expressões e palavras de sua infância, regionais, há pouco frescas como fruta ao ponto de comer em pé de árvore, ao alcance.   O esquecimento a esvazia. O silêncio traz o oco fundo. Escorrega em paredes duras e arredondadas, e as abençoa, sentindo-se abençoada.  Não ser o que foi a desconcerta e a desconhece de si e dos outros.  Vagas nostálgicas batem nela e a arrancam da falésia onde se agarrava.  Em seu corpo nascem guelras e barbatanas. Em seus sonhos cobras deixam para trás as velhas peles, e um pardal se incendeia e renasce.  Estranha suas filhas, três mulheres desconhecidas como ela mesma, ou seja, como ela-outra.

Três vezes ao dia os ponteiros do relógio são uma linha reta tendendo ao infinito, apenas por um instante.


Percepções

segunda-feira, 4 de junho de 2012

"Poema Percebido", de Gabriel Arcanjo















Quero um poema

sem pausa

Sem ponto

Sem virgula

Que seja lido corrido

Reinvente as palavras

Sem rima

Que por mais

Que seja mal escrito

Que ele gere polêmicas

Silêncio e gritos

Mas que não seja metafísico

Que se arrisque

E que corra perigo

Um poema sem história

Que não fale do passado

Nem recorra a memória

Que seja dito

Ao pé do ouvido

Quer seja preto e branco

Ou colorido

Que seja transparente

Mas não passe despercebido

Que ateie fogo ao quarteirão

E provoque o libido

Um poema profundo

Que abra as portas do mundo

Há muito tempo fechadas

Que sacie a fome

E alivie a dor

Enfim um poema de amor

Que seja de dominío público

Como uma oração

Feita dos pais para os filhos

E dos filhos para os pais

E que ninguém saiba

De onde ele veio

E para onde ele vai

Que seja dito por camponeses

E executivos

Que suplante a guerra

E instaure a paz

E que ninguém diga

Que tanto faz

sábado, 12 de maio de 2012

Crônica













Entre costuras

Pregava os botões que caiam de minhas roupas, cerzia meias, interpretava os vestidos que eu sonhava em moldes tesoura provas e alfinetes, e pedalava a máquina de costura. Também bordava. Fez meu vestido de primeira comunhão, e antes, a camisola do batizado. Assistia comigo as serenatas que me ofereciam, me levava a bailes, e eu lhe contava de namorados.  Acompanhou passo a passo o enxoval, e vibrou no dia do casamento. Gostava do meu jovem marido, estava no hospital quando nasceu a primeira filha. Seu sorriso iluminava-lhe o rosto, lindos dentes, olhos pretos tez azeitona. Quando pequena costumava me dizer, jocosamente:


_ O que seria de você sem mim?

sábado, 5 de maio de 2012

Roberto Bolaño, "2666".

(Imagem do acervo pessoal: Escultura de arame e capsulas de nescafé, Eliane Accioly, Título, Atravessador em Viagem)



















Resenha de Eliane Accioly

Originalmente, pela vontade do autor, o livro sob o nome de "2666" seria publicado em cinco diferentes livros ou volumes. Lançado após a morte de Bolaño, surgiu como um livro de cinco capítulos. Obra de arte literária única, eu diria, cada capítulo constitui em si um livro. Os personagens transitam nos diferentes livros/capítulos, em diferentes épocas de suas vidas, e uma cidade vai se constituindo como o lugar/espaço reunificador das narrativas. Narrativas no plural porque a escritura de Bolaño, neste livro, é voluntáriamente fragmentada, feita de muitos fios, sem que nos percamos, e se sim nos perdemos, podemos nos reencontrar, e novamente nos perder. Digo voluntária porque Bolaño sabia passo a passo o que fazia. Um de seus recursos é quebrar a todo momento "o muro negro que separa o sonho da vigília"; ou desmanchar as fronteiras entre a sanidade e a loucura.

O personagem chave é o escritor Benno von Archimboldi, candidato ao Nobel, figura mítica e histórica, no livro, e o ídolo de alguns críticos, que o tornam o leimotiv de suas vidas. Em torno de sua obra gravitam a vida de, pelo menos, quatro críticos. Archimboldi, em cuja história inicial (no último capítulo), como nascimento e infância nada nos levaria a crer que seria o escritor do porte em que se tornou. Nasce Hans Reiter, na Baviera, e luta na segunda guerra mundial. Hans Reiter e seus parceiros de fileiras, não tinham a menor ideia do que ali faziam. Archimboldi, o eterônimo de Bolaño?

Descobri Roberto Bolaño lendo este livro, embora já houvesse escutado acerca do escritor chileno, morto prematuramente, talvez, das consequências de hepatite C.

Estando no Chile durante a queda de Allende pelo golpe militar, Bolaño foi preso, não por pertencer a algum partido, mas ser tido como suspeito; era um pensador, um artista, escritor. Na prisão apenas não foi torturado porque três carcereiros haviam sido seus colegas de classe, em sua infância e adolescência. Mas escutou os gritos dos que eram torturados. Os colegas/amigos conseguiram libertá-lo, e ele se exilou. Em Barcelona conheceu uma catalã, com quem se casou. Tiveram dois filhos. Bolaño dizia que a única pátria que conhecia eram sua mulher e seus dois filhos.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Liberdade





(Acervo pessoal, de Eliane Accioly, acrílico sobre tela, 2011, título, Natureza viva)

















Em minha casa escolho o que como
e o que bebo,
o lugar onde descanso,
a roupa que uso,
ou se nua

Na casa dos outros aceito o que me dão

Em minha casa apenas dou
a quem vier,
o melhor de mim

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Diálogo aberto _ Versos e conversas acerca de: "o que é ser poeta?"

Foto de viagem, acervo pessoal: Espanha















Dilmar GomesApr 11, 2012 07:04 PM

Amiga Eliane, acho que ser poeta é deixar transbordar a emoção, é dizer aquilo que muita gente traz trancado no peito. Ser poeta é esquecer de si e ver a beleza que ainda existe apesar de todos os ditos em contrário.
Um abração. Tenhas uma noite poética.

Morgana GazelApr 12, 2012 03:36 PM
Acrescento: ser poeta é destino sem amarras, ser romancista é destino que nos leva ao gozo de uma prisão libertadora.
Um afetuoso abraço


Poeta é "bicho doido" e que bom seria se este mundo fosse um hospício. Viveríamos sem violência e desrespeito humano, apenas poetando... Já pensou??? (risos) Amei... Beijos.

http://elianeacciolypsicanalisearte.blogspot.com

http://elianeaccioly.blogspot.com

Querida Vitoria Lucio, queridos blogueiros, este mundo é um hospício no mal sentido, que delícia se fossem todos poetas e in-sensatos. Seríamos amor reconhecendo uns aos outros, distribuindo poemas, pão e flores. E tomando vinho, certamente. Beijos

Ser poeta é sentir música e cores nas palavras. É ter coragem de abrir o coração e deixá-las saltar para o papel incondicionalmente...


Oi Eliane, se me permite: ser poeta é enxergar elementos e fenômenos gratuitos que a natureza nos dá.


Poeta amador
Não é aluno nem professor
É ser humano não é robô
Hoje ele escreve no com-puta-dor
Mas ainda não usa despertador...

Não é profeta
Nem é filósofo
Só esquenta a cabeça
Palito de fósforo.

Passa o dia a toa, a toa...
Que a vida é boa!
É boa!

No meio da noite desperta
Aperta a caneta na caderneta
Desenha nas pautas a sua letra.

Escreve poemas
A toda hora
Que não tem hora para escrever
Que ser poeta não tem escolha
Fazer poesia não tem querer...