sábado, 29 de dezembro de 2012

Despedida de 2012


 
 
 
Crio cavalos-de- batalha,

apascento-os,

mato sua sede,  

escovo o pelo.

 

Eles me cavalgam.

 

Sem saber o que fazer com a manada infernal,

transformo um a um em bolha de sabão.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

MENSAGEM PARA 2013












Queridos blogueiros,

obrigada a todos, obrigada por suas mensagens amigas. Estou lendo Amós Oz, "de amor e trevas". Na página 76 ele diz: "Não precisamos de literatura lamuriante, e já nos cansamos de (...)".
Esta frase bateu forte em mim.
Que tenhamos em 2013 uma arte original e inovadora. E que esta arte nos forneça outras visões de mundo. A dor existe e é parte da vida, mas não façamos de nossa dor lamentações.
Que possamos usar a alegria e a dor para criar perspectivas, e também para encontrar saídas.
Precisamos de territórios e saídas. Desejo-lhes de coração que encontrem territórios e saídas. Que o "estrangeiro" de cada um de nós se fortaleça, e nos fortaleça. Desejo que cada um de nós possa fazer da própria vida uma obra de arte.
Todo meu carinho!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal e Ano Novo









Deixo uma cumbuca de cristal bem límpido com cerejas e romãs à porta de cada poeta, confrades queridos de tantos anos. Os blogs estão aqui _ desde 2008? Cerejas e romãs símbolos de criatividade e prosperidade. Em minha cabeça e coração ronda uma música de Natal, que todos vocês sejam abençoados. Será que o tempo realmente, passa mais rápido? Será que a rotação do planeta ganhou velocidade? Acho que deveríamos perguntar à ciência da física, com suas investigações ela abriu e construiu paradigmas. O Pensamento complexo brota bastante da física. E a física (era) uma ciência que se chamava exata... Não Mais? ! Bendita física quântica. Não somos exatos. Somos. cada um de nós, inesperados. Benditos cada um de vocês, cada um de nós. Com amor, Eliane


(A ilustração é a carta "O Mago", do Tarô, desenhada por mim. Ou seja, não foi copiada de nehum baralho consagrado. Esta carta representa alguém seguindo seu caminho, de posse dos instrumentos aprendidos, ao longo da vida).

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Quem sou eu?
Não sei.
Estou no que faço.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A amiga enseada


 

onde aportei meu barco tantas vezes,

recebida em festa e alegria,

entre almofadas macias e iguarias.

A amiga enseada partiu.

 

Sinto-me rica pelo seu legado,

cumplicidade onde cabiam risos e lágrimas,

sonhos derrocados,

outros realizados.

 

Sua partida me deixou mais só,

e me faz sentir ser monja

em voto de pobreza.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Alguns gostam de poesia

Poema de Wislawa Szymborska
Tradução de Regina Przybycien

Alguns_
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam_
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se a afagar um cão.

De poesia_
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta,
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como uma tábua de salvação.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

 
Há pontos de mutação
em que vida sai do prumo
 
De cabeça para baixo,
meus olhos enxergam um outro mundo
 
 
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Palavras afloram

 

 
 












Palavras libélulas
borboletas
grilos
traças
corvos azuis
passam por mim,
e me atravessam.
_ Não pertencem ao presente,
são ancestrais.
Minh´ alma sopra.
_ Anteriores á linguagem? Pergunto,
e a alma me responde:
_De onde o tempo não importa,
talvez, quem sabe,
de um espaço-tempo sem palavras ?
Escutando minha alma que se fez palavras,
apesar de negá-las,
aquelas animais descansam em meus ombros,
frágeis pássaros quebradiços.
Transformada em árvore,
rezei a um deus desconhecido:
_ Fiquem comigo,  lhes imploro!
Me acompanhem,
me dêm o tempo de compreender.
Ao perceber o fervor do meu espanto
fugiram assustadas,
não mais me rodearam a quebra mar,
nem dançaram à luz de meu olhar.
Mas outras chegaram fortes e palpáveis,
na verdade frágeis coriscos em noite de verão.
Frágeis e fortes,
criando não um momento fauna-flora,
me tornando  libélulas
borboletas
grilos
traças
corvos azuis.
Multipla, animais e árvore recebo o que me vem,
e o deus desconhecido
aflora em mim.



 

 

domingo, 4 de novembro de 2012

 
A comadre

Moema Borges e sua horda de afilhados e afilhadas, para ela, reis e rainhas. E suas comadres, cada qual intimamente ligada e se sentindo única. E ao mesmo tempo se reunindo umas às outras, se tornando amigas, aglutinadas em torno da comadre Moema. Até merece inventar uma etiologia para a palavra “comadre”: “co-madre(s): mulheres sendo mães juntas, dividindo, trocando, compartilhando experiências, no gerúndio”. As comadres da Moema, uma confraria, a irmandade feminina amando crianças, meninada bonita que crescia conosco e aos nossos olhos, festa barulhenta e divertida. “Comadre”, certamente, também é simbólico, como tudo o que diz respeito ao humano. Não importa quem Moema batizou. Em torno dela se reuniram mulheres, homens e crianças, pessoas de diferentes credos, crenças, idades e etnias, tribo a qual tantos pertencemos. Se batismo tem o sentido de iniciação, Moema iniciadora amorosa, incentivadora nunca autoritária, propiciava.
Na verdade, cada pessoa das famílias de quem Moema se aproximava a queria, e com ela usufruiu. Tão amada, muitos de nossos jovens a quiseram madrinha de casamento, e ela subiu a muitos altares. Em cada encontro abria o sorriso de olhos verdes e os braços aconchegantes, dizendo: “Coooooomaaaaaadre”. Ou, “Amiiigaaaaaaaaaa”. Ou “Queeeeeeriiiiiiiidaaaaaaa”.
Aprendi tanto com ela! Cada dia uma novidade, algumas pragmáticas, outras sonhadoras. No nosso caso, duas arianas tão diferentes, e tão parecidas. Nossas mães, o mesmo nome, Mariinha. Nossos filhos regulando em idade. Deliciosa contadora de histórias. Em uma delas, a sua avó, recém-parturiente, amamentando sua criança. A avó morava “na Fazenda”. Diferentemente dos outros filhos, aquele bebê passava fome, o leite da mãe não o sustentava. Chorava, e a mãe não sabendo o que fazer, chorava também. Um dia, acharam a jiboia que morava no teto, e na calada da noite descia sorrateira, para sugar o leite da mulher adormecida. Alguém matou a cobra, e rasgada sua barriga o leite ainda fresco escorreu, nem tempo de talhar. Contei à comadre que esta história ganhou mundo e virou lenda, pois, primeiro soube dela através do meu avô, quando pequena. Aquela mulher com sua criança, e aquela cobra, povoam ainda hoje meu imaginário.
Irmãs não consanguíneas, eleição mútua, linhagem espiritual que se vive e não se explica, também discordávamos, no trocar ideias, no teimar. Afinal, arianas, né? Nossa concepção de vida e mundo, esta sim, da mesma cosmologia. Em determinado momento no campo dos debates começávamos a rir uma da outra, e cada qual de si, “Nooossaa Senhoora!” Nunca nos despedimos sem imaginar e combinar o próximo encontro.
Feminina e original, a comadre gostava de se vestir. Nunca escondeu procedências e endereços, dava-os de bandeja, e seus fornecedores e fornecedoras passavam a fazer parte da tribo de amigos, do bando. Na cozinha arrasava, em pouco tempo a mesa era um banquete, fosse comida goiana-mineira, ou das mais sofisticadas, lanches, almoços, jantares. Inventava doces, compotas de frutas, bolos tortas, biscoitos. Chamava de “comida de Deus”. Em meio ás delícias culinárias, correram saraus literários e de artes em geral, ela nos cercava de beleza. Arquitetou a reforma do apartamento em que moramos hoje, o compadre dela e eu. Adorou nos ter na Avenida Paulista. Bastava um telefonema para combinar o que fazer: um filme na Reserva? Um café na Cultura? Passar na Fnac? Na Martins Fontes? Tomar o metrô e comprar o pão dos beneditinos? E lá íamos braços dados falando e rindo de qualquer bobagem, tecendo sociologias do povo que cruzava conosco, do que nos cercava, filosofando. Tecelãs, tramando e urdindo, e nos sentindo parte das horas, das pessoas e dos acontecimentos. Vivas na vida, lúdicas, e levando viver muito a sério, vivíamos no tempo. Não é possível falar da Moema no geral, e tenho certeza, cada amiga, amigo, comadre ou compadre, terá infinitas lembranças e histórias para contar. E os afilhados e afilhadas? Nossa Moema de Freitas Borges continua em cada um de nós.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

RISCOS


Na tribo dos rebeldes,
fazer o quê?
Vivo e brinco
de aprendiz

 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Muita saudade

Meu amor,
por que desapareci?

A culpa é do Tempo

 
Voa como gaivota,

grasna, mergulha

e some no mar

 
Estou aqui no lugar

que conhecemos:

 
a padaria, a floricultura,

livrarias, cafés, ruas e ladeiras,

salas de cinema

 
E no entanto,

em um lugar

inteiramente outro





 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

No ateliê do professor

No Ateliê de Sergio Fingermann
Anotações de Eliane Accioly
A arte
7 de agosto, 2012

1. Oferece pistas para onde você vai/indo (no gerúndio) , com suas experiências. É estar em contato com o que acontece (acontecendo).
2. O processo Artístico é parecido com o que ocorre com o encontro entre o Par Analítico. (Paciente e terapeuta).
3. O artista perde as referências exteriores ao contexto do objet...
o de arte, por exemplo, um quadro, um poema, um conto. O artista usa as referências externas para se perder.
4. O estranho em nós: conhecer muito e esquecer muito. O estrangeiro, o que está de passagem, que não habita e não pertence.

Aula de Hoje
14 de agosto, de 2012

1. O que é a imagem? A imagem não é o que aparece, ou o que parece. A imagem é memória, porosidade, trânsito. É a dimensão da evocação. Quando escutamos um acorde, o acorde termina nele mesmo. Escutamos a continuidade. Pensamos que escutamos uma frase musical. (E até escutamos a frase musical). Mas cada frase musical é feita de acordes que se sucedem. Nossa memória guarda o primeiro acorde, o segundo... a infinidade dos acordes. Nossa memória (artística) é feita de porosidade. É porosa. Nossa memória é uma ficção para construir sentido, onde não há sentido.
2. Somos vazio. Cascas de cebola que vamos tirando para chegar ao.......... vazio. Somos um grande vazio.
3. A dimensão do sagrado ajuda a elaborar o estar junto na alteridade. A noção do outro.
4. Aonde a imagem se faz? O destino da imagem não é entendimento, mas a compreensão no tempo.
5. Celebrar a vida é viver a experiência. É “como uso minha experiência”. É inclusive, “tirar o minha”, porque é preciso deixar o eu, e, a subjetividade de lado. Elaboramos a experiência vivendo outra experiência. E assim, sucessivamente.
que ocorre com o encontro entre o Par Analítico. (Paciente e terapeuta).
3. O artista perde as referências exteriores ao contexto do objeto de arte, por exemplo, um quadro, um poema, um conto. O artista usa as referências externas para se perder.

terça-feira, 31 de julho de 2012

O invisível

Há uma enorme diferença entre o oculto e o invisível.
Estou com muitas saudades de meus amigos blogueiros.
Será um tema pare desenvolver aqui, com vocês.
Curto o invisível.
A voz humana, o ar que respiramos são palpáveis e invisíveis, não é o máximo?
A saudade e os sentimentos também são invisíveis.

Enorme abraço

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Gerações: música em três tempos

Foto de arquivo pessoal _ Espanha, Cuenca









I - 1321 A.C.
                                  
                                       

No princípio, amanheci deserto.

Um homem _ metade sol, metade lua _ escalando dunas, descobriu-me os seios. Oculto no remanso de um abraço infindo fecundou-me. Ao conceber os gêmeos renasci oásis, uádi, poço, palmas, tamareiras.

Desde então, os frutos que de mim brotam alimentam pássaros, camelos, cabras, cobras, lagartos, as caravanas dos tuaregues, a luz e as sombras do meu homem. E os meninos: o Negro e o Dourado.

  

II - 1950 A.D.

A cama de espaldar alto e dossel de filó não protegia meu sono de menina das areias, do calor, da comida, da língua e musica árabe, ou dos murmúrios do Nilo, que, renegados pela cultura de minha gente, apesar de vivermos no Cairo, entravam sorrateiros e caudalosos pelas conversas proibidas nas sombras da cozinha.

As tias, avós, primas mocinhas, minha bela mãe, vestidas de sedas e rendas de Chantilly, preenchiam salas luminosas de risos e vozes musicais. Os homens desmanchavam-se na fumaça dos charutos, embriagados com a promessa dos lucros nos negócios. As crianças corriam por varandas, caramanchões, jardins. Vivíamos nas bordas do Sahara, e falávamos o francês.


III - Terceiro Milênio

Atravessamos o mar, conheci meu marido, tivemos filhos. Agora, avó, em meus sonhos, permaneço jovem e loira. Neles visto leves e transparentes véus, cavalgo camelos enluarados, quando, os cheiros, sons, e ritmos vivos, torneados e sacrílegos me possuem, em tempos e verbos de língua brasileira.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tentando instalar o tradutor de textos

Publoco a ajuda de Peonia:

Querida Eliana son Peony
Usted está muy feliz de ayudar.
Me pongo cuando creé mi blog he encontrado varias dificultades. Sólo después me enteré de algunas cosas con el tiempo.
Trato de explicar cómo agregar el traductor. Con la esperanza de ayudarle. Así que cuando me vienen a visitar se hace más fácil para mí y para otros para entender su contenido.
Luego, en la página del blog en la esquina superior derecha hay un icono con las palabras de arriba y luego haga clic en Diseño en el lado izquierdo de la página se verá voces diferentes ... lo que tienes que hacer clic en el DISPOSICIÓN elemento de la pantalla que aparece haz clic en el elemento Añadir Gadget después de la verás muchos gadgets, pero basta con hacer clic en el elemento y después de agregar el TRADUCTOR GOOGLE guardar el diseño.
Espero haber sido claro, ya sé que no es muy fácil, pero verá usted tenga éxito y nos vemos pronto besos

Vi que ya se han resuelto. Brava. Un abrazo

Tradução de Eliane Accioly, por Norma Segades Manias

Foto de Oaxaca, 2003




ALGO PARECIDO A UNA TRADUCCIÓN

Cuando visité México, para el Onceavo Encuentro de Mujeres Poetas en el País de las Nubes, pensaba que su gente, los nativos, podrían comprender mis poemas en português, al leerlos durante los encuentros. Fue ese uno de los mayores engaños que debí afrontar. La lengua española me parecía “similar” a la lengua portuguesa, después de todo, ambas son romances. Sin embargo, comprendí lo profundamente disímiles y misteriosas que son en sus particularidades. Así, sentía inútiles mis poemas, que no serían comprendidos en português, y una semana por delante, para desesperarme. O retornar antes a Brasil, con el rabo entre las piernas.

Me salvó la poeta Norma Segades. Los poemas que llevé, en su mayoría, habían sido publicados en dos libros. Y no eran necesarios más que seis u ocho poemas porque serían leídos en pueblos y ante públicos diferentes. Norma no me dejó leer ningún poema en português para que fuera mejor comprendida. Y estaba en lo cierto. ¡Bendita amiga!

Por la noche, nos reuníamos las cuarenta poetas en un bar sencillo y acogedor donde comíamos nuestros bocadillos. Fue en este sitio, en el pueblo de Emilio Fuego, que Norma y yo, trabajamos sobre los poemas. Ella los tradujo, incansablemente. Un trabajo inolvidable a cuatro manos, cuatro ojos, dos corazones, y la presencia de dos mujeres aventurándose entre dos idiomas. La primera noche nos pusimos de acuerdo y detuvimos la tarea casi de madrugada. Trabajamos también otras noches aunque por esas horas estábamos exhaustas. Ya que, desde la mañana al fin de la tarde, nos afanábamos amorosamente en llevar la poesia a los pueblos cercanos.

Al comenzar las presentaciones, con las traducciones en mis manos, me sentia bendecida y a salvo. Entonces, leía mi poema en português y una poeta de lengua hispânica lo hacía, a su vez, en español. Experiencia única para cada uno de nosotros y para el público. Las lenguas desconocidas son musicalidad pura, cuando se trata de poemas. De los buenos poemas, por cierto. Así fue que escuchamos poemas en mixteco, hebreo, danés, inglês y español.

Fue en esta ocasión que me dí cuenta de las marcadas singularidades entre ambos idiomas. Y como fue posible encontrar una hermana del alma, en la poesia y en Norma.

Cuando mi hija menor fue a vivir a Madrid, donde se casó y tuvo una hija, comprendí mejor la diferencia entre ambos idiomas. Fuera del ámbito familiar, comprendo lo absolutamente trivial pero no puedo conversar profundamente con casi nadie. Norma ha sido siempre una excepción. Con ella, no sé como, pude atravesar las fronteras de los sentimientos y las emociones.

Uno de esos misterios.



Ensaio: Duas poetas traduzem poemas


Publicado por Norma Segades-Maniás em    http://gacetaliterariavirtual.blogspot.com

PÁGINA 10 – ENSAYO


ELIANE ACCIOLY FONSECA
(San Paulo-Brasil)

DIÁRIO DE VIAGEM: 2003

Quando estive no México para o XI° encontro de“Mujeres poetas em el Pais e las Nubes”, acreditava que as pessoas de lá, os nativos, pudessem compreender meus poemas, quando eu os lesse nos encontros, em Português. Foi um dos maiores engodos que me aprontei. A língua espanhola me parecia “parecida” com a língua portuguesa, afinal são neolatinas. No entanto, são profundamente diferentes e misteriosas em suas diferenças. Assim, tinha meus poemas inúteis, que em português não me serviriam, e toda uma semana pela frente, para me desesperar. Ou retornar antes ao Brasil, com o rabo entre as pernas.

A poeta Norma Segades-Manias me salvou. Os poemas que levei em grande parte, estavam publicados em dois livros. E não seriam necessários mais que seis ou oito poemas, pois eles seriam lidos em pueblos diferentes e para diferentes públicos. Norma não me deixou ler nenhum poema em português, me convencendo que não seria compreendida. Ela tinha razão. Bendita amiga! Á noite nos reuníamos todas as quarenta poetas em um bar simples e simpático onde comíamos nossos lanches.

Foi neste bar, no Pueblo de Emílio Fuego, que Norma e eu nos debruçamos sobre os poemas. E ela os traduziu incansavelmente. Um trabalho inesquecível em quatro mãos, quatro olhos, dois corações, e a presença de duas mulheres se aventurando entre dois idiomas diferentes. Na primeira noite praticamente ficamos acordadas, e varamos a madrugada. Trabalhamos em outras noites também, trabalho extra, pois por essas horas estávamos exaustas.

Trabalhávamos de manhã ao fim da tarde, o que adorávamos, pois nossos trabalhos era levar poesia ao povo do lugar.

Ao começaram as apresentações dos poemas pelas poetas, com as traduções de Norma Segades-Maniás em minhas mãos, sentindo-me abençoada e salva! Então eu lia o poema na língua portuguesa, e uma poeta de língua hispânica o lia por sua vez, em espanhol. Experiência única, para cada uma de nós, e para o público. A língua desconhecida, para nós, é pura musicalidade, tratando-se de poemas. Bons poemas, por sinal. Escutei poemas em mixteca, hebreu, danês, inglês e espanhol.

Foi por esta ocasião que me dei conta do quanto os idiomas português e espanhol são distintos entre si. E como foi possível encontrar uma irmã de alma, na poesia, em Norma.

Quando minha filha mais nova foi viver em Madrid, onde se casou e teve uma filha, compreendi ainda melhor a diferença entre os idiomas. Fora do âmbito familiar ali me compreendem no absolutamente trivial, mas não posso conversar profundamentecom quase ninguém. Uma das exceções sempre foi Norma, com quem, nem sei como, pude avançar as fronteiras dos sentimentos e emoções.

Um desses mistérios.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Tradutor

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sábado, 7 de julho de 2012

Contradições




 

 
“Ela” habita a casa em que moro,

 
e ali não sou senhora.

 
Se desejo galinha à cabidela

 
“Ela” cozinha caranguejos,

 
e eu os devorarei alegremente.

 

 
Aprontou versões perigosas de mim,

 
traduções estranhas nas quais me espantei,

 
sofri e morri muitas vezes

 
mas agradeço, pois, me fizeram ampla.

 

 
De uma vida juntas,

 
comendo sal na mesma gamela,

 
mútuas descobertas,

 
de nós duas quem envelhece sou eu,

 
“Ela” permanece uma menina.

 

 
Agora, fluindo em mim torna-se pintora,

 
aprecia minhas mãos, me sopra aos ouvidos:

 

 
_ Mãos que fazem coisas,

 
manejam pincéis, desenham esboços

 
e palavras, plantam orquídeas,

 
e penteiam crianças,

 
cozinham e tiram a poeira dos móveis,

 
de quando em quando.

 

 
Quem trabalha sou eu,

 
“Ela” brilha em meus olhos

 
faz leve ou pesado meu coração

 
e eu que tanto me assustei

 
já quase não me assusto,

 
“Ela” chega a me fazer rir de mim e dela,

 
quando a percebo independente,

dizendo ou fazendo

o que nem pensei.

terça-feira, 3 de julho de 2012





Sor Cecilia, meu carinho admiração, gratidão, e alegria por estarmos juntas!
Viva aos blogs!

sábado, 23 de junho de 2012

Resenha de Edimilson de A.PEREIRA, de "Poemas na Arena"




“Poemas à flor da pele: a poesia de Eliane Accioly Fonseca”.  In: Corrente. Pirapora, Ano XXII, No 959, 01 de novembro de 2002, p. 6, de Edimilson de A.PEREIRA


       A leitura de Poemas na arena é um convite à luta, sem intervalos. Luta que – embora evidencie amazonas e cavaleiros como contendores – se estende para ser uma tomada de atitude do ser humano contra todas as iniqüidades. A presença de uma voz que se assume como a voz da mulher exprime, por um lado, a justa reivindicação de quem se viu historica-mente espoliada de seus direitos; por outro, o desafio para compreendermos nesse fio específico a análise das tensões que dizem respeito a todos nós.
       Para navegar nessas duas margens, simultaneamente, Eliane Accioly assume a palavra como seu meio de trabalho e a persona de poeta como sua identidade: "poeta/extraio lucidez/da loucura // e do bruto/loucura liquefeita/ translúcida" (Instantes). Essas escolhas, antes de serem amarras que a limitam a dois campos da realidade, se convertem em agentes legitimadores de sua ação criadora. Por isso, quando nos dá ver a sua criação, Eliane Accioly nos apresenta a si mesma, agora multiplicada através da persona do poeta.
       Assim, a poeta entra na arena e seu embate com a palavra, embora difícil, não anula a possibilidade dos frutos pois, afinal, "palavras pulsam" e "cunham fados" – estão vivas para quem vive ("encarno o tempo/ e os enxames// quando respiro"). A partir desse reconhecimento é necessário acrescentar outro, central para que se possa tocar o cerne dos poemas. A poeta emprega a colméia – isto é, seus agentes (abelha rainha, operárias, zangões) e as relações (de hierarquia, trabalho, sexualidade, violência) que estabelecem entre si – como metáfora para falar dos agentes humanos e de suas relações. Em vista disso, pode-se dizer que os temas se apresentam aparentemente restritos ao confronto feminino/masculino, mas intrinsicamente vinculados às indagações de todos os seres humanos; aparentemente tecidos em torno de uma poética da natureza, mas profundamente mergulhados na psicologia humana.
       É, portanto, sob o signo da multiplicidade da palavra e das metáforas que nos deparamos com a recuperação do mito para expressar as experiências do sujeito contemporâneo, como em Coro de Sibilas: "oh enxame de Dionísio,/o vosso gozo não conta". Nesse caso, a mitilogia funciona como suporte para a veiculação de um discurso amoroso tenso, atravessado pelo lirismo e pela violência. Tangenciando, para diferenciar-se, da síntese camoniana em que platonicamente "Transforma-se o amador na cousa amada", Eliane Accioly nos dá conta de que o amar é perder-se exatamente porque decorre de uma realidade concreta, marcada por confrontos: ":a flecha deixa seu arco/ fere o alvo, se oferta".
   O amor, por sua vez, desce à arena onde "os personagens/apresentam-se/na flor da carne" (Teatro) e, diante da nudez humana, se revela múltiplo: como desejo ("amor, cio/andrógino", Platônico); como transformação do ser e do corpo ("a cópula/ delimita o par: recorte cósmico", Metamorfose); e, sobretudo como luta ("chegam os cavaleiros /…/ sob o vermelho cruel/ de um céu que não os protege/ nos jogos nupciais", Consortes). Apesar do confronto, é no confronto mesmo que o amor se realiza ("o sexo da rainha,/caverna templo/ câmara matrimonial// arena// de um encontro indissolúvel entre a fêmea e o macho", Primórdios).
       Dentre outros temas abordados sob a ótica anterior, é interessante realçar: a politização do texto mediante o emprego da metáfora da colméia, ou seja, para se contrapor ao discurso masculino dominante a poeta encarna a potência da mulher abelha e afirma: "nua refém/ paramentos de apicultor/ não me acodem", Uma mulher abelha); a desconstrução da imagem romântica da mulher a partir de sua apresentação como identidade plural ("a mulher/ abelha/ é o picadeiro", Circo; "operárias guerreiras/ amas curandeiras sibilas, em mutirão", Arquiteta; "a moça guerreira", Lenda); a erotização do discurso religioso como forma de criticar a vigilância que a religião impôs à sexulidade feminina ("o consorte// habita/consome/fertiliza/a amada// a morada/o consome", Mistério gozoso); a inversão do significado do ato de vencer através da crítica à ideologia que propaga esse fato como privilégio masculino ("oh bem amado guerreiro!/ olvide vossa vitória/ a colméia vos conquista", Coro de Sibilas).
       Mas, sob a multiplicidade da palavra e da metáfora, a poeta surpreende a permanênca do discurso patriarcal que demarcou os valores considerados suficientes para definir a mulher. Valores que transmutaram a sua capacidade geradora em prisão para ela mesma, submetendo seu desejo e sua individualidade à força das necessidades da espécie: "a guerreira abre alas/ entre fileiras vivas/transformando-se na matriz/aguardada pela aldeia// o ciclo da história se marca:/ oh guerreiro, oh soberana,/ vossas vontades não contam/ quando canta a colméia" (Lenda).
       Ao abordar os embates entre feminino e masculino, Eliane Accioly propõe uma verdadeira alquimia do verbo, pois elabora um discurso direto mas que se nutre da multiplicidade de sentidos da palavra e das metáforas. Desse modo, imagens conhecidas decorrentes da associção da mulher à natureza adquirem novas configurações. Mais do que flor e abelha, a mulher que se apresenta na arena percebe que suas atribuições englobam e ultrapassam essas associações. Ciente disso, a poeta pode dialogar com o masculino criticando-o e redescobrindo-o como interlocutor, além de descobrir-se a si mesma como sujeito que, "entre temperos e palavras", cria significativamente o seu discurso.
       Poemas na arena se orienta como um livro que instiga o leitor a entrar no círculo de conversas, seja para contestar ou partilhar a voz da poeta mas, acima de tudo, para assumir-se como parte dessa experiência humana. E este é um outro caminho que Eliane Accioly palmilha para criar um discurso perturbador, pois se na aparência é a poeta quem se desnuda, ao final nos quedamos também com essa sensação "à flor da carne". Ou seja, diante um livro de coragem, a abertura ao diálogo das mulheres entre si, dos homens entre si, bem como de mulheres e homens entre si, se insinua como uma atitude possível e necessária.

                _________________
                Edimilson de Almeida Pereira
                Genebra, 14 janeiro 2002

quarta-feira, 20 de junho de 2012

sábado, 16 de junho de 2012

De finitude e infinito








Uma crônica



Neste agora ela é mais esquecimento que lembranças. Do que se lembra? Do que se esquece? A sensação regente é real, como o vento que entra pela janela aberta. É como uma notícia que chega e conta que ela se esquece de expressões e palavras de sua infância, regionais, há pouco frescas como fruta ao ponto de comer em pé de árvore, ao alcance.   O esquecimento a esvazia. O silêncio traz o oco fundo. Escorrega em paredes duras e arredondadas, e as abençoa, sentindo-se abençoada.  Não ser o que foi a desconcerta e a desconhece de si e dos outros.  Vagas nostálgicas batem nela e a arrancam da falésia onde se agarrava.  Em seu corpo nascem guelras e barbatanas. Em seus sonhos cobras deixam para trás as velhas peles, e um pardal se incendeia e renasce.  Estranha suas filhas, três mulheres desconhecidas como ela mesma, ou seja, como ela-outra.

Três vezes ao dia os ponteiros do relógio são uma linha reta tendendo ao infinito, apenas por um instante.


Percepções

segunda-feira, 4 de junho de 2012

"Poema Percebido", de Gabriel Arcanjo















Quero um poema

sem pausa

Sem ponto

Sem virgula

Que seja lido corrido

Reinvente as palavras

Sem rima

Que por mais

Que seja mal escrito

Que ele gere polêmicas

Silêncio e gritos

Mas que não seja metafísico

Que se arrisque

E que corra perigo

Um poema sem história

Que não fale do passado

Nem recorra a memória

Que seja dito

Ao pé do ouvido

Quer seja preto e branco

Ou colorido

Que seja transparente

Mas não passe despercebido

Que ateie fogo ao quarteirão

E provoque o libido

Um poema profundo

Que abra as portas do mundo

Há muito tempo fechadas

Que sacie a fome

E alivie a dor

Enfim um poema de amor

Que seja de dominío público

Como uma oração

Feita dos pais para os filhos

E dos filhos para os pais

E que ninguém saiba

De onde ele veio

E para onde ele vai

Que seja dito por camponeses

E executivos

Que suplante a guerra

E instaure a paz

E que ninguém diga

Que tanto faz

sábado, 12 de maio de 2012

Crônica













Entre costuras

Pregava os botões que caiam de minhas roupas, cerzia meias, interpretava os vestidos que eu sonhava em moldes tesoura provas e alfinetes, e pedalava a máquina de costura. Também bordava. Fez meu vestido de primeira comunhão, e antes, a camisola do batizado. Assistia comigo as serenatas que me ofereciam, me levava a bailes, e eu lhe contava de namorados.  Acompanhou passo a passo o enxoval, e vibrou no dia do casamento. Gostava do meu jovem marido, estava no hospital quando nasceu a primeira filha. Seu sorriso iluminava-lhe o rosto, lindos dentes, olhos pretos tez azeitona. Quando pequena costumava me dizer, jocosamente:


_ O que seria de você sem mim?

sábado, 5 de maio de 2012

Roberto Bolaño, "2666".

(Imagem do acervo pessoal: Escultura de arame e capsulas de nescafé, Eliane Accioly, Título, Atravessador em Viagem)



















Resenha de Eliane Accioly

Originalmente, pela vontade do autor, o livro sob o nome de "2666" seria publicado em cinco diferentes livros ou volumes. Lançado após a morte de Bolaño, surgiu como um livro de cinco capítulos. Obra de arte literária única, eu diria, cada capítulo constitui em si um livro. Os personagens transitam nos diferentes livros/capítulos, em diferentes épocas de suas vidas, e uma cidade vai se constituindo como o lugar/espaço reunificador das narrativas. Narrativas no plural porque a escritura de Bolaño, neste livro, é voluntáriamente fragmentada, feita de muitos fios, sem que nos percamos, e se sim nos perdemos, podemos nos reencontrar, e novamente nos perder. Digo voluntária porque Bolaño sabia passo a passo o que fazia. Um de seus recursos é quebrar a todo momento "o muro negro que separa o sonho da vigília"; ou desmanchar as fronteiras entre a sanidade e a loucura.

O personagem chave é o escritor Benno von Archimboldi, candidato ao Nobel, figura mítica e histórica, no livro, e o ídolo de alguns críticos, que o tornam o leimotiv de suas vidas. Em torno de sua obra gravitam a vida de, pelo menos, quatro críticos. Archimboldi, em cuja história inicial (no último capítulo), como nascimento e infância nada nos levaria a crer que seria o escritor do porte em que se tornou. Nasce Hans Reiter, na Baviera, e luta na segunda guerra mundial. Hans Reiter e seus parceiros de fileiras, não tinham a menor ideia do que ali faziam. Archimboldi, o eterônimo de Bolaño?

Descobri Roberto Bolaño lendo este livro, embora já houvesse escutado acerca do escritor chileno, morto prematuramente, talvez, das consequências de hepatite C.

Estando no Chile durante a queda de Allende pelo golpe militar, Bolaño foi preso, não por pertencer a algum partido, mas ser tido como suspeito; era um pensador, um artista, escritor. Na prisão apenas não foi torturado porque três carcereiros haviam sido seus colegas de classe, em sua infância e adolescência. Mas escutou os gritos dos que eram torturados. Os colegas/amigos conseguiram libertá-lo, e ele se exilou. Em Barcelona conheceu uma catalã, com quem se casou. Tiveram dois filhos. Bolaño dizia que a única pátria que conhecia eram sua mulher e seus dois filhos.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Liberdade





(Acervo pessoal, de Eliane Accioly, acrílico sobre tela, 2011, título, Natureza viva)

















Em minha casa escolho o que como
e o que bebo,
o lugar onde descanso,
a roupa que uso,
ou se nua

Na casa dos outros aceito o que me dão

Em minha casa apenas dou
a quem vier,
o melhor de mim

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Diálogo aberto _ Versos e conversas acerca de: "o que é ser poeta?"

Foto de viagem, acervo pessoal: Espanha















Dilmar GomesApr 11, 2012 07:04 PM

Amiga Eliane, acho que ser poeta é deixar transbordar a emoção, é dizer aquilo que muita gente traz trancado no peito. Ser poeta é esquecer de si e ver a beleza que ainda existe apesar de todos os ditos em contrário.
Um abração. Tenhas uma noite poética.

Morgana GazelApr 12, 2012 03:36 PM
Acrescento: ser poeta é destino sem amarras, ser romancista é destino que nos leva ao gozo de uma prisão libertadora.
Um afetuoso abraço


Poeta é "bicho doido" e que bom seria se este mundo fosse um hospício. Viveríamos sem violência e desrespeito humano, apenas poetando... Já pensou??? (risos) Amei... Beijos.

http://elianeacciolypsicanalisearte.blogspot.com

http://elianeaccioly.blogspot.com

Querida Vitoria Lucio, queridos blogueiros, este mundo é um hospício no mal sentido, que delícia se fossem todos poetas e in-sensatos. Seríamos amor reconhecendo uns aos outros, distribuindo poemas, pão e flores. E tomando vinho, certamente. Beijos

Ser poeta é sentir música e cores nas palavras. É ter coragem de abrir o coração e deixá-las saltar para o papel incondicionalmente...


Oi Eliane, se me permite: ser poeta é enxergar elementos e fenômenos gratuitos que a natureza nos dá.


Poeta amador
Não é aluno nem professor
É ser humano não é robô
Hoje ele escreve no com-puta-dor
Mas ainda não usa despertador...

Não é profeta
Nem é filósofo
Só esquenta a cabeça
Palito de fósforo.

Passa o dia a toa, a toa...
Que a vida é boa!
É boa!

No meio da noite desperta
Aperta a caneta na caderneta
Desenha nas pautas a sua letra.

Escreve poemas
A toda hora
Que não tem hora para escrever
Que ser poeta não tem escolha
Fazer poesia não tem querer...











quarta-feira, 11 de abril de 2012

Da série: poema inútil

(Atravessadora, uma paloma, de Eliane Accioly)
















Da série poema inútil



Ser poeta é enlouquecer mais um pouco,
é enxergar nas ruas o rastro branco e preto dos automóveis,
alheio à dança dos pedestres,
é desenhar a elegância trôpega do mendigo

em seu desamparo e sua solidão,
é doer pelo que não posso mudar,
é criar parcelas de mundo

Ah, ser poeta é tragédia tragicômica,
porque  preciso rir, principalmente de mim,
é não ter o cabelo penteado
e andar vez por outra, descalça,
na Avenida Paulista

Ser poeta é escrever por eleger um destino
e quem sabe? Também ser escolhida?

Não preciso de partido político para pertencer à resistência, porque o poeta não é doutrinável,
ser poeta é descobrir que a poesia é política ética e feroz,
é ter no coração uma biga,
pois, ser poeta é pertencer a legiões rebeldes,
sabendo-se minoria absoluta

Para Aziz Ab´Saber, meu professor de geografia


Foto de Paula Marcondes, em algum lugar da Ásia






















Ser poeta é atávico, como ser mãe

O poeta tem nele o lagarto e o pássaro,
as camadas tectônicas e os sambaquis
a criança e o velho

O adulto é sério demais

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Diario de viaje: 2003

Diario de viaje: 2003

México – un país donde las riquezas y las diversidades culturales y temporales coexisten

Los recuerdos de viajes se transforman en relatos y otros pensamientos: “Este país es, tal vez, menos mágico y menos homogéneo de lo que pretende la leyenda. Como corresponde a una sociedad de tantas culturas, hay aquí múltiples formas de hacer frente a la muerte de los seres queridos, al sufrimiento de la agonía, al vértigo de lo desconocido. ¿De qué manera los esqueletos y calaveras se convirtieron en signos del nacionalismo mestizo? ¿Cómo llegaron los mexicanos a persuadirse a sí mismos de que tenían con la muerte una relación de privilegio?” (Artes de México, Risas y Calaveras, nº 67, pág. 56/57, 2003)
Esa contribución modesta y breve es hecha de reflexiones, observaciones, lecturas, visitas a México, vivencias, y el acceso respecto a algunas de las tradiciones mexicanas. México es un país muy especial y misterioso. Otávio Paz, de cierta forma, compara México a la India, por la multiplicidad de tradiciones que existen en ambos países, aunque, evidentemente, bastante diferentes. En México de hoy día, hay más de cincuenta lenguas vivas, remanentes de las antiguas tradiciones autóctonas, como la Tolteca, la Mixteca, entre otras, pueblos anteriores a los Aztecas. Aniquilados por la invasión española. México invadido y devastado nunca fue, sin embargo, completamente colonizado. La cultura española y europea se hizo parte inmortal de las raíces mexicanas, sin embargo, es una entre otras de las incontables tradiciones de ese pueblo. Las tradiciones ancestrales sobrevivieron escondidas, transmitidas oralmente de generación en generación.
Los libros de Carlos Castañeda son una de las fuentes de información de la tradición tolteca, transmitida a los linajes de personas, no necesariamente mexicanas, por lo menos en los últimos tiempos. Esa transmisión, sin embargo, crea una especie de familia no consanguínea, de lazos muy fuertes, sin embargo, lazos de linaje de un aprendizaje de otras maneras de ver y estar en la vida. Otras concepciones de vida. Carlos Castañeda abrió la posibilidad de que muchos pudieran conocer lo que antes era restricto a pequeños grupos. Además de él hay otras fuentes vivas de transmisión, ahora abiertas a las personas que las buscan, una de las características de nuestra actualidad. Quien entra en el Museo del Hombre, en la Ciudad de México, podrá maravillarse con el espacio dedicado a la Cultura Tolteca, anterior a la Azteca.
Estuve en el estado de Oaxaca, en el “XI Encuentro de las Mujeres Poetas en El País de las Nubes”, en 2003, cuando oí poemas declamados en la lengua mixteca. En aquella ocasión visitamos pueblos, y tuvimos la experiencia de oír otros idiomas hablados y vivos. Estuvimos en escuelas y nos reunimos y trabajamos con alumnos. Los idiomas (o el lenguaje) bastante amplios, son hechos también de bailes, cantos, presentaciones, ropas, y no sólo de palabras. Fuimos honradas con varios espectáculos, representados por grupos de jóvenes. De nuestra parte ofrecimos poesía en las escuelas, en plazas públicas, en ruinas aztecas, en iglesias. Y también talleres de poesía.
En el idioma mixteca, la palabra Mixteca quiere decir País de las Nubes. Para llegar al estado de Oaxaca tomamos un autobús chárter, que partió de la Ciudad de México, que se encuentra alrededor de 3.000 metros sobre el nivel del mar. La región que atravesamos subía en altura, a medida que seguíamos. El nombre País de las Nubes viene de esa altitud elevada. En esa región las nubes quedan muchas veces a nuestra altura, y nosotros las atravesamos. En ese viaje en dirección al sur de México, encontramos una amplia región semiárida donde sólo veíamos altos y fantásticos cactus: una floresta de ellos. Entré en trance.
Esos encuentros son organizados por el poeta Emilio Fuego, con el apoyo de la comunidad de su estado natal, Oaxaca, México. En realidad, son encuentros comunitarios, que existen por la fuerza poética que Emilio Fuego, que con su sueño, esparce por la población. En 2003 cuando allá estuve y participé fue el XI Encuentro. En 2012, acontecerá el XIX Encuentro de Mujeres Poetas en el País de las Nubes, supongo, en noviembre. En el encuentro del cual participé éramos 40 poetas, de varias nacionalidades y lenguas. A pesar de estar en México, entre las poetas la lengua con la cual conseguíamos comunicarnos fue el inglés. Aunque mi portuñol me haya ayudado con las poetas de lengua española. Con el pueblo no, me comunicaba con la lengua corporal y mímica universales.
Leíamos los poemas en la lengua materna de cada una, y una poeta de lengua española los leía para nosotros. Así, oímos poemas en danés (Dinamarca), hebraico, inglés, mixteca, portugués, además del español. El objetivo de Emilio Fuego con estos encuentros que se repiten cada año es llevar la poesía a los pueblos de su región natal, y donde aún vive, la región llamada de Mixteca por el pueblo mexicano, en el estado de Oaxaca. Según Emilio y el testimonio de las personas locales, estos encuentros hacen toda la diferencia, porque poesía no se enseña, pero contagia. En los pueblos visitados por las poetas las personas son sedientas de poesía. El México que visité es un país de poetas anónimos, que podrán dejar de ser anónimos, debido a la calidad de su poesía.
Frida Kahlo, pintora mexicana, una artista de la cual estoy cerca por mi interés, curiosidad y ganas de aprender, nos muestra con su trabajo e ideas la complejidad de su país. Su padre era alemán, su madre mexicana, descendiente de indios. La pintora tuvo una nana india, que retrata en “Mi nana y Yo”, o “Yo mamando”, (1937, óleo en metal, 30,5 x 34,7 cm, “Museo Dolores Olmedo Patiño”, Ciudad de México). Frida Kahlo era muy conectada al padre, y con certeza, a la tradición alemana-europea. Frida, por ejemplo, era marxista militante, aunque no materialista. Para Frida el mundo era vivo, ella estaba en contacto con la Tierra, el Sol, los seres vivos, fueran humanos, animales, plantas. La tradición autóctona le fue transmitida más fuertemente por su nana que por la madre. Transmitida con la leche y contacto corporal, el habla, y probablemente las cantigas e historias en alguno de los idiomas autóctonos, el de la nana. Quién sabe, la cultura Tehuana. Kahlo en fotos y auto retratos aparece vestida en el tradicional traje de una dama Tehuana. La exuberancia de los cuadros de Frida, en mi modesta percepción, no viene de Europa. Frida fue una artista autodidacta, y lo que en su obra se asemeja al surrealismo, pienso yo, es una explosión de su sensibilidad, de su conexión con la Tierra, el Sol, el Firmamento, que en su pintura y diario ella trata como dioses. Y, evidentemente de su enorme talento personal.

La muerte para el mexicano

Me intriga en México, la relación que el mexicano tiene con la Muerte. Muerte, con letra mayúscula, personaje que aparece bajo formas jocosas: andando en bicicleta, a caballo, con máscaras sonrientes, saliendo de flores o de huevos parecidos a nuestros huevos de pascua, parejas de prometidos, desnuda o vestida variadamente. Son objetos hechos de lata, pequeños o grandes. Hay también dulces con el formato de huevos, con la(s) cara(s) de la Muerte. Los mexicanos que conocí usan tales objetos de lata para adornar sus árboles de navidad. En México fuimos hospedadas por personas de diferentes clases sociales. Todos nos daban lo mejor que tenían. El viaje terminó en Oaxaca, ciudad próspera y rica. En la casa de una matriarca comí por primera vez, pollo con salsa de chocolate, un plato típico. Oaxaca, para mi encanto, fue uno de los lugares en que Don Juan y Carlos Castañeda se encontraban. En un fresco de Diego Ravera, “Sueño en la tarde de un verano”, (en Parque Alameda – 1947-48) la Muerte aparece vestida como dama requintada, entre una multitud de personas, en la cual se encuentran Frida y el propio Diego, pintado como un niño. Diego fue marido y la gran pasión de Frida Kahlo.
El día de los muertos, 2 de noviembre, en finados, tiene en México un significado diferente del que para nosotros, aquí en Brasil, cuando conmemoramos y recordamos a nuestros muertos. En México, finados engloba a los muertos familiares, pero los transciende, porque es un día que se conmemora principalmente la Muerte, como una existencia, una presencia. Es un día de fiesta, banquetes, procesiones de personas festivas, vestidas con sus mejores ropas. No es que no haya dolor por la pérdida de personas queridas. El dolor es humano, y está en todos los lugares. Pero en México, el día 2 de noviembre, el dolor aparece ruidoso y festivo, goloso de golosinas, como dulces y chocolates. En la transmisión de Don Juan Matos, el maestro de Carlos Castañeda, cada uno de nosotros nace con su propia muerte. Según el cristianismo nacemos con nuestro Ángel de la Guardia. Por la sabiduría tolteca nacemos con nuestra Muerte, que queda a nuestro lado izquierdo y nunca nos toca, a no ser cuando morimos. Pero para Carlos Castañeda, (para mí el Platón de nuestros tiempos, mientras Don Juan estaría como Sócrates contemporáneo), la Muerte puede y debe hacerse nuestra aliada. Para eso es necesario un trabajo de autoconocimiento que dura toda la vida. La Muerte como aliada estará siempre recordándonos que no somos eternos, y no tenemos mucho tiempo. Por eso, necesitamos aprovechar nuestro tiempo de vida con todo nuestro empeño. Cuando la Muerte se hace nuestra aliada, antes de partir con ella, bailamos nuestra última danza.